O Caso Lula e o Sistema de Saúde da Holanda
01 Nov 2011
by Miss D. Cherie
in Curiosidades, Holanda
Oi, povo lindo e pobre!
Já falei aqui algumas vezes sobre leis para maconheiros na Holanda e tudo o mais, mas lá é um país lindo, a terra onde viveu Anne Frank e foi inventada a Heineken, por isso a Holanda sempre merece mais um post nesse blog.
Dessa vez vou usar o “caso Lula” para falar da terra dos moinhos de vento e dos vestidos ultrapassados.

a última palavra em "moda"
Tá uma loucura na internet pra ver quem zoa o Lula primeiro por ele ter câncer de laringe. O povo brasileiro adora reclamar de tudo e a bola da vez foi o ex-presidente porque ele é político, então para muita gente ele é mau, e como ele foi presidente e ninguém viu de perto o advento da saúde no Brasil, #todostorce para que ele se trate pelo SUS e, dito isso, se lasque.
Há bons textos por aí sobre como o SUS é massa, como ele funciona, assim como existe gente que jura de pé junto que Dean Winchester não foi pro inferno na quarta temporada de Supernatural – na verdade ele foi pro SUS.
Politicamente existem as duas vertentes e eu não tô aqui pra defender ou atacar algo que eu sequer usei até hoje – mesmo porque, assim como provavelmente você também, eu tenho plano de saúde privado. Vim hoje mostrar pra vocês o trecho de um texto da Larissa Spinardi, brasileira que mora na Holanda há vários anos, publicado no site pessoal dela, o Liss na Europa.
E dou uma dica: não se machuque na Holanda! E tenha certeza de que pagou direitinho seu seguro saúde antes de viajar pra lá! A Europa é linda, querida e uma delícia refrescante – mas nem por isso os países de lá são melhores do que o seu.
E boa sorte aí pro Lula, pro SUS, pra todo mundo que tem plano de saúde e pra Liss! Afinal, precaução e canja de galinha nunca fizeram mal à ninguém.
Sistema de saúde na Holanda – por Larissa Spinardi
Depois que eu me mudei para cá eu descobri que o SUS é um sistema lindo! Apesar das filas, hospitais atendendo mais gente do que conseguem e a má distribuição de recursos, os médicos brasileiros são muito mais capacitados do que os daqui. O fato de plano de saúde ser uma coisa opcional e não obrigatória também é um ponto positivo para o Brasil nesse quesito. No Brasil, se você tiver uma suspeita de que quebrou o pulso você vai direto ao hospital e tira um raio x. Aqui você primeiro tem que passar no médico generalista para ele te dar uma autorização para fazer o raio x, raio x esse que fica só na tela do hospital, você não recebe ele. Eles só te informam que não está quebrado mas não te falam o que foi que aconteceu e nem como deve ser tratado. É tchau, benção e se vira. Outra coisa que me revolta é você ir ao médico com uma dor estranha e eles vão procurar os seus sintomas no Google! É verdade, eles fazem isso de verdade. É para ter seus sintomas procurados no Google que você paga aquele absurdo de plano de saúde? Sem contar que se você tiver um sintomas que eles não conseguem identificar, eles te mandam voltar para casa, tomar paracetamol, repousar e se persistir você marca outro horário com ele daí uma semana. Então se for uma coisa séria você tem que ficar sofrendo uma semana inteira até ser tratada. Tudo isso que eu estou relatando aqui são coisas que aconteceram comigo pessoalmente, não são estórias que ouvi de terceiros.
Bom, eu podia falar aqui de como eu acho os impostos que pagamos aqui super altos, mas é graças à esses impostos que a segurança que eu citei a é mantida, é por causa dos impostos que as ruas estão em bom estado e tudo funciona do jeito que tem que funcionar. Tudo bem, dói pagar 60% do seu salário em impostos, mas desde que a gente veja o nosso dinheiro sendo usando para manter o país funcionando, acho que vale a pena.

"ainda bem que não fui presidente na Holanda... lá eu teria me ferrado!"
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Nov 01, 2011 @ 20:46:36
Querida, que legal seu post. Posso aproveitar a oportunidade apenas para esclarecer uma coisa?
Primeiro, deixe eu me apresentar. Sou assessora de comunicação em um Núcleo de Pesquisa em Saúde Coletiva, local em que nasceram (e nascem) diversas políticas públicas em saúde brasileiras. Daqui também saíram dois ministros da pasta: José Gomes Temporão e José Agenor Álvares. Como muitas pessoas, antes de vir trabalhar aqui, eu não tinha idéia da complexidade do SUS e do quanto ele é, de fato, uma conquista importante para todos nós (cujo maior mérito foi, sem dúvida, estender o direito à saúde a cerca 50 milhões de pessoas. Antes do SUS, só eram amparados pelo estado os trabalhadores de carteira assinada. O resto vivia ao Deus dará. Pergunte à sua mãe, ela deve se lembrar do famigerado INAMPS, sistema que precedeu o SUS no Brasil).
Eu era, portanto, cheia de ideias equivocadas a respeito da saúde coletiva no Brasil. Uma delas (perfeitamente compreensível) é exatamente essa que detecto no seu texto agora: a de que quem tem plano de saúde ou paga por serviços particulares não é usuário do SUS. Na verdade, todos somos usuários, porque o sistema é bem mais amplo do que se imagina. Praticamente todas as vacinas que você tomou na vida, por exemplo, certamente foram oferecidas (gratuitamente) em uma unidade básica de saúde. Este serviço é do SUS. Os hospitais particulares que a gente freqüenta (até os mais chiques) são fiscalizados e vistoriados pela Vigilância Sanitária – um braço do SUS. Os remédios que a gente toma – sim, até aqueles bem caros, comprados na farmácia – tem distribuição controlada pelo SUS. Entre tantos outros benefícios.
No mais, parabéns pela sua cabeça aberta ao debate e à assimilação de novas ideias. O SUS ainda tem muito o que avançar, mas tenha certeza: o caminho certo é brigar por ele (como uma conquista alcançada com muita luta e que precisa melhorar) e não contra ele (como se ele fosse uma porcaria que não deu certo).
Abraços!
Nov 01, 2011 @ 20:58:34
taí uma coisa que eu não tinha assimilado: as vacinas! realmente, sou usuária do SUS mesmo tendo plano de saúde…
mesmo porque quando alguém se acidenta e precisa de uma cirurgia em BH, geralmente vai pro João 23, que é hospital público…
eu acho que a gente deveria dar mais valor ao que é nosso, e o depoimento da Larissa no texto mostra isso: a gente enche a boca pra falar que lá fora tudo é lindo (quando não é verdade) e desdenha de várias coisas muito legais que temos por aqui!
Abraços, leitora!
Nov 03, 2011 @ 15:55:06
Ô dona Laís, posso saber o porque da senhora estar me chamando de Larissa no texto? Só minha mãe me chama assim e mesmo assim só quando está muito brava comigo haha.
Então, eu sei que o SUS está longe de ser perfeito, mas como a moça aí em cima (não consegui encontrar o nome dela), eu também já trabalhei no SUS, eu era recepcionista de um posto de saúde nos anos de 2001 e 2002. Fora isso, eu nunca tive plano de saúde na vida! Eu sempre fui atendida pelo SUS em todas as ocasiões.
Ao chegar aqui na Holanda, de cara eu tive problemas com o sistema de saúde daqui. Não sei se você se lembra mas eu fiquei com em situação irregular (pra não dizer ilegal) por aqui e por isso eu não podia ter um plano de saúde, e sem plano de saúde médico nenhum te atende e se você for ao hospital com alguma emergência eles até te atendem, mas te colocam no próximo avião de volta pra casa e ainda te mandam uma conta que é mais cara que seu rim.
Quando eu me mudei pra Bélgica, tudo era diferente. O plano de saúde lá também é obrigatório mas você só paga o que utiliza. Os médicos são mais atenciosos e mais seguros do que estão fazendo. Os remédios de doenças crônicas são pagos pelo plano de saúde ou são extremamente baratos (tipo bombinha pra asma que custa 0,80 centavos). Comparando com o SUS o sistema da Bélgica ainda deixava muito a desejar, mas era algo com o qual eu conseguiria conviver sem problemas.
Ao voltar pra Holanda, dessa vez legalizada, veio a primeira bomba: 500 euros de uma só vez pra pagar o plano de saúde. 500 euros sem aviso prévio e sem possibilidades de parcelamento. Eles nem te dão um prazo pra pagar, simplesmente mandam uma carta pra sua casa dizendo que dia tal o dinheiro será retirado da sua conta. E olha que esse dinheiro é só pra se inscrever no plano. Daí por diante 32% da sua renda será direcionado para o pagamento do plano de saúde, quer dizer que quem ganha menos paga menos, mas todo mundo tem que pagar. Quem não tem renda tem o dinheiro descontado da renda do responsável (ou do cônjuge) ou do seguro social que recebe do governo.
Isso tudo seria lindo se a gente tivesse um sistema de saúde de qualidade. Mas essa não é a realidade. Além dos casos que eu contei no texto que vc tirou do meu blog (casos esses que aconteceram comigo pessoalmente), eu já ouvi inúmeros outros casos de pessoas com pedras enormes nos rins e que foram mandadas várias vezes pra casa pra repousar, tomar paracetamol e cházinho. Essas pessoas chegaram a desmaiar de dor antes de conseguirem um mísero raio X e serem diagnosticadas com pedras nos rins. E isso é só mais um dos vários exemplos que eu poderia passar o dia todo citando por aqui. Fora os casos de grávidas que saem daqui para dar a luz no Brasil porque não confiam nos médicos daqui. Tá, os hospitais daqui não têm fila, vc não tem que acordar as 5 da manhã pra conseguir uma consulta com o generalista e consultar com um especialista também é super fácil, mas do que adianta tudo isso se vc só consegue ser diagnosticada quando a situação já está insuportável?
A Holanda tem vários exemplos de como as coisas em um “país de primeiro mundo” nem sempre funcionam melhor do que no Brasil. Além dos direitos do consumidor (que por aqui não existe) e dos direitos trabalhistas, o Brasil dá de dez quando o assunto é sistema de saúde, tanto a pública quanto a particular são muito melhores do que aqui. Os próprios holandeses que tanto defendem o sistema de saúde daqui, quando têm uma doença tão séria quanto câncer, correm pros EUA ou pra Alemanha para se tratarem.
Nossa, falei mais do que vc no post hahaha. Deixa eu parar por aqui antes que o blog vire meu hehe
May 23, 2012 @ 14:00:07
até que enfim, post e replies lúcidos sobre a relação Brasil x Europa. fala sério, gente, to cansada de ver neguinho saindo do país e meter o pau em tudo que a gente tem (ou que eles acham que deveríamos ter) sem nem se dar o trabalho de se informar antes. aí, tudo na Europa é melhor, mais bonito, mais digno. na boa: lá tem muita coisa boa. aqui também. lá tem muita coisa bonita. aqui também. lá tem gente inteligente. aqui também. lá tem m****. aqui também.
ou seja: nenhum lugar é perfeito. o paraíso ainda não foi encontrado (ou foi? alguém me avise, por favor!!!), minha gente, e bom-senso é bom e todo mundo gosta!!!
por fim, quanto ao SUS e o sistema de saúde brasileiro: tive a honra de conhecer o Dr. Helvécio Magalhães na época em que ele era secretário de saúde de Minas Gerais. e tive também a alegria de ter acesso à tese de doutorado dele, sobre… o SUS!!! nela encontrei informações que me deixaram boquiaberta, admirada e orgulhosa do meu país. funciona perfeitamente? todos sabemos que não. mas muitos passos largos dessa longa trajetória já foram dados. por isso eu também desejei que o Lula se tratasse pelo SUS: com certeza ele seria muito bem atendido!!
valeu, Paulinhaaaaaaa!! beijo pra tudo que é lado!!